Estúpido. Texto inédito de Sr. Gentileza (Luiz Tiago).

ESTUPIDEZ

A voz se levantou, o tom mudou, a agressividade não é mais abafada, é exposta, escancarada. Saiu em palavras, talvez muito mais do que códigos verbais, e sim, enigmas íntimos plenamente decifrados contra você. 

Havia intenção. Houve intenção. Há intenção. Haverá intenção. 

Saiu dito do interior. Foi falado como um soco, um chute, um cotovelo cortante. 

Real. Real. Real. 

Reagi. Questionei. Pedi. Silenciei. Levantei. Sofri. Reagi. Expus. Discordei. Cansei. Decidi. Desisti.

Me sinto fragmentado, dividido. Sei exatamente o que devo fazer, a começar por jamais permitir que qualquer pessoa me humilhe. Não há diálogo ultimamente e já faz um bom tempo que o entendimento entre a gente fez as malas e se foi. Há qualquer momento tenho que me proteger e entrar num modo de sobrevivência para garantir que ficarei ileso. Fui ferido. De novo. Ele falou. 

Machucou. Sangrou. Gritou. Resmungou. Insistiu. Resisti. Lacrimejei. Suspirei. Perdoei. Não.

Não mais. Prometi a mim mesmo desde a última vez que não passaria por isso novamente. Estou passando e a única coisa que consigo fazer é reagir. Mas ainda reajo. Seria isso bom sinal ou anúncio do fim. É recorrente e cada vez mais frequente. São pequenos episódios diários, rotineiros. Penso em ir embora, para qual lugar? Quero chorar (de novo?). Dessa vez, não. Nunca mais. Choro, só se for de reação à intimidade que me pertence, por mim mesmo. Não preciso. Já deu.


Luiz Tiago

Sr. Gentileza

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